Biblioteca de Saint Demaint
1982
O cheiro das páginas desgastadas dos milhares de livros da biblioteca me transportava para outro mundo. Um mundo onde eu não precisava temer nada e ninguém. Um mundo onde eu era vital, onde eu era mortal. Um mundo onde eu era eu mesma. Um mundo só meu. Aquelas não eram simples páginas fétidas que me transferiam para um passado que não era nem tão distante, nem tão passado, mas que trouxera tantas mudanças que pareciam mais de mil anos, mas o que me transportava mesmo era a arquitetura do local. Nas bibliotecas modernas já não existiam mais aquelas altas prateleiras colossais de madeira, nem os complexos lustres magistrais que se estendiam no teto.
Jean Pierre trabalhara comigo há anos naquela biblioteca. Ele nascera em uma família pobre. Aos 5 anos sua mãe acordou no meio da madrugada e avisou seu marido que estava prestes a dar a luz. Lloris, pai de Jean Pierre, havia bebido além da conta naquela noite, porém socorreu sua esposa e fez a única coisa que não deveria ter feito: guiou a si mesmo, a esposa, o seu ainda não nascido filho, e Jean Pierre para a morte. Jean Pierre fora o único que sobrevivera a tragédia.
Apesar de que o acidente deixara Jean Pierre vivo, exigiu-lhe um preço. Ele saíra ileso, porém menos de um ano depois, perdeu a vista por completo. Apesar de não enxergar, Jean Pierre, virou bibliotecário aos 20 anos, e aos 22 anos pegou o seu primeiro e único emprego. Mesmo sua cegueira não conseguira por fim a sua paixão por livros.
Os olhos de Jean Pierre não lhe permitiram perceber que eu, ao seu lado, não envelhecia. As vezes, ele me indagava sobre minha voz, o fato de ela não mudar com os anos, e sempre ser a voz de uma menina. Eu não tinha uma resposta válida para ele. Soava tão jovem, como a de uma jovem, dizia ele. Porém eu dizia que ele era um velho bobo e que talvez sua paixão por mim o fizesse me escutar como uma menina, assim como se ele enxergasse, me enxergaria como uma menina. Estava falando a mais pura verdade, pois meus olhos castanhos, minha pele nem tão branca e meus cabelos escuros e levemente ondulados conservavam o mesmo brilho de 50 anos atrás, quando nos conhecemos.
Devido a sua limitação, Jean Pierre se aficcionara nas histórias que eu contava. Quando nos conhecemos, eu lia para ele, mas em alguns anos já havíamos lido quase toda a biblioteca, então para entretê-lo comecei a fingir que lia as histórias nos livros, quando na verdade, eu as estava tirando da minha cabeça. É claro que boa parte delas eram inventadas, mas algumas faziam parte da minha própria história. Como éramos só nós dois naquela imensa biblioteca, as vezes dormíamos enquanto eu as contava, ou como ele acreditava, as lia. Trocávamos confidências enquanto Jean Pierre preparava um chocolate como mais ninguém sabia. Era um pouco amargo e um tanto doce, dava para sentir o pó que ele havia ralado de grandes barras que ele mantinha na despensa só para mim. Não era um chocolate em pó como aqueles que vendiam nos supermercados. Era um chocolate ralado por ele, adoçado por ele. De fabricação própria, e que segundo ele, e eu sabia que era verdade, apenas eu havia experimentado dessa receita que havia aprendido com o pai quando era muito jovem.
As longas e altas prateleiras da biblioteca exigiam muito esforço do já velho Jean Pierre, porém sua teimosia e sua relutância em envelhecer faziam com que subisse uma escada de uns 70 degraus só para ter o gostinho de encontrar um determinado livro. E caso fosse necessário encontrar uns 30 livros naquele dia, Jean Pierre insistia que era ele quem deveria fazê-lo. Afinal de contas, para ele eu era tão velha quanto, e ainda por cima era mulher.
Com o passar dos anos, aprendi a contornar isso, levitando para entregar os livros na mão dele, pelo menos dessa forma, era menos arriscado que ele caísse, mas eu sabia que cedo ou tarde isso aconteceria. Das maldições que vieram com a minha imortalidade uma delas, era o dom de “visualizar” o futuro. Não era bem ver imagens nem nada disso. Elas vinham como um pressentimento, mas não um medo ou uma angústia, mas uma certeza de que algo ruim iria acontecer, e quase sempre acontecia. Já havia tentado alterar algumas de minhas “visões”, porém apenas com acontecimentos triviais havia sido possível. E a “visão” de Jean Pierre caindo da escada havia sido tenebrosa, porém não havia forma de avisá-lo e ainda que eu o fizesse, ele aceitaria o seu destino, como havia aceitado durante toda a sua vida.

0 comentários:
Postar um comentário