Casa de Coraline
1745
A densa chuva caía novamente esse ano. Havia chovido mais que o usual e minha mãe devido a sua doença, estava muito mal e eu temia por sua vida. Eu cuidava dela já há alguns anos, porém sua saúde havia deteriorado com o passar do tempo.
Eu fazia o possível mesmo com a minha total falta de recursos. Esquentava panos para colocar em suas costas que doíam muito, e por vezes a faziam gritar de dor, e preparava chás de todos os tipos, alguns a melhoravam como mágica, mas outros lhe faziam muito mal, porém era difícil saber qual era qual, eu nunca tinha certeza mesmo que eu tentasse anotá-los, pois o vendedor constantemente misturava-os para me vender coisas parecidas, quando lhe faltava o produto, apenas para me obrigar a comprar em seu armazém. E como mal tínhamos dinheiro para comer, o pouco que eu juntava, eu tentava guardar para as raras ocasiões em que eu conseguia que o único médico que tinha há mais de 100 km de distância viesse vê-la.
Dr. Alberto Cunha era um médico português que havia vindo de muito longe para tratar os pacientes de pequenos vilarejos ao redor da cidade, ele era um homem muito rico. Em apenas alguns anos havia juntado uma fortuna como nenhum outro médico da região, mas não por ser bom ou habilidoso, mas sim por ser o único. E além de tudo ele tratava pacientes que não tinham muita chance, como minha mãe. Ele devia ter por volta de 50 e poucos anos e sua esposa, já falecida, nunca havia lhe dado um herdeiro. Era um homem muito sozinho, e carregava um semblante pesado de quem havia sofrido muito.
Já se passara alguns meses desde que eu havia enviado um mensageiro para chamá-lo numa noite em que minha mãe quase morrera, porém não mantive muitas espectativas, pois na mensagem eu lhe dizia que pensava que minha mãe fosse morrer e que precisava que ele a atendesse com urgência, porém que me permitisse lhe pagar em outra ocasião. Já havia perdido as esperanças de que ele viesse, quando um dia ouvi alguém batendo na porta. Afastei-me do leito de minha mãe, soltando-lhe a mão que havia me agarrado com força quando ela adormeceu cansada depois de nossa prece diária. A marca ficou, pressionei levemente pois como eu não queria incomodá-la aquela região acabou por ficar dormente.
Fui atender completamente despreocupada, provavelmente era algum bêbado da taverna pedindo que eu voltasse para lá, ou então o próprio Sr. Albuquerque, meu patrão, exgindo que eu retornasse para a taverna para servir as milhares de cervejas que servíamos todos os dias. Mas para a minha felicidade era o doutor, não pude evitar abri-lhe um sorriso de ponta a ponta, e as lágrimas teimaram em escorrer. Não contive minha vontade em lhe dar um abraço bem apertado, e ele com sua costumeira seriedade, me afastou sem graça retirando gentilmente meus braços de seu pescoço. Sorri sem graça, e o ajudei a retirar o casaco e o chapéu, enquanto ele já me perguntava apreensivo:
_ Onde está sua mãe, menina? - a impaciência em seu timbre de voz era evidente, e talvez diferente. Pois em anos que ele nos atendera, sempre fora muito gentil, apesar de sério. Procurei não me importar, e o respondi prontamente:
_ Ela está lá encima, deitada, e não está nada bem, doutor. - eu o guiei com bastante cuidado até o quarto de minha mãe, e após subirmos o pequeno lance de escada, ele se aproximou dela. Tocou-lhe a testa, sentiu-lhe o pulso, tudo com um descaso que eu nunca tinha visto antes. Tive um ímpeto de lhe dizer alguma coisa, porém aguardei.
Após uma breve examinada, ele se afastou e me fez acompanhá-lo até o corredor:
_ Sua mãe está morrendo, minha filha.
Fiz uma careta de dor, e desatei a chorar:
_ Eu sei doutor, por isso lhe chamei.
_ Mas não há nada que eu possa fazer por ela aqui. - ele abaixou a cabeça triste. _ Ela teria que ficar internada em um hospital. Eu teria que levá-la até lá.
_ Mas o senhor sabe que eu não tenho dinheiro, doutor. Eu trabalho numa taverna, onde meu patrão me paga alguns centavos pelas bebidas que eu sirvo. Mal dá para comer.
Ele balançou a cabeça com indiferença. E aquilo me irritou tremendamente, mal pude me controlar:
_ Você não pode deixá-la morrer!
Ele se virou me encarando com desdém. Eu respirei fundo, e lhe toquei o braço gentilmente:
_ Me desculpe, me desculpe, doutor. Eu estou muito rude, afinal, o senhor veio aqui sabendo que nem posso lhe pagar essa visita, e eu te trato...
Fui bruscamente interrompida:
_ Como assim? - ele me segurou pelo antebraço.
_ Na mensagem que eu lhe mandei… - tentei me soltar enquanto me explicava. _... eu pedi para o garoto lhe entregar. - eu tropeçava nas palavras.
A expressão dele era de raiva:
_ Eu não recebi mensagem alguma! - me segurou pelo outro braço agora com mais força ainda. _ Vim porque você demorou a dar notícias, mas não vou sair daqui sem que você me pague. - seus olhos quase explodiam para fora, e ele falava aos gritos parecendo que cuspia as palavras.
Eu fiquei com medo, e voltei a me desculpar.
_ Dr. Alberto, me desculpe, mas eu não posso lhe pagar hoje, mas prometo que irei lhe pagar, o trabalho na taverna me dá pouco dinheiro, mas logo consigo juntar.
_ Trabalho na taverna! - me empurrou com desprezo._ Pare com isso! “Taverna”. - Me imitou. _ Eu quero o meu dinheiro, e não saio daqui sem ele!
Apesar do medo, minha boca trêmula, conseguiu proferir algumas poucas palavras entre as lágrimas que começavam a escorrer:
_ Dr. Alberto, minha mãe está doente, ela está morrendo como o senhor disse... - solucei. - Por favor, me permita pagar-lhe no final dessa semana. Eu juro!
O tapa que eu recebi na rosto foi tão forte que as lágrimas cessaram naquele mesmo instante e me calei. O olhar dele sobre mim, fazia com que eu me sentisse um nada, menos que lixo.
_ Eu vim até aqui e está me dizendo para retornar para me casa e sonhar com o dia que irá “você” irá me pagar. - fez uma pequena pausa. _ Isso depois que sua mãe estiver morta e enterrrada, não é? - esperou uma resposta que não veio. _ Ah não me desculpe! Enterrada não. - era cínico. _ Porque nem dinheiro para enterrar essa pobre coitada você vai ter.
Minha respiração acelerou. A raiva crescia dentro de mim, e um ímpeto de xingá-lo, de empurrá-lo, até de matá-lo só crescia. E ele não parava:
_ E quando sua mãe morrer, o que fará, sua tola! Irá queimá-la em praça pública? Eu precisava levar essa morimbunda, porque caso ela morra, no hospital saberão o que fazer. Você não entendeu, sua burra! - Deu uma risada forçada. _ Achou que eu estava querendo levá-la para salvá-la? Não! Não! Não! - gritava se descontralando. _ Não que eu espere que ela tenha um enterro cheio de rosas, velas e tudo mais não, apenas espero que dispensem o o corpo para não ficar apodrecendo numa rua qualquer.
Meus dentes rangiam, eu já não o enxergava em minha frente, o ódio era muito. E aquelas malditas lágrimas insistiam em cair, tornando minha figura ainda mais frágil.
_ E digo mais, carne de gente como vocês quando apodrece fede muito.
_ Ah! - pulei sobre ele lhe acertando no rosto sem parar. Mas senti que isso mal o antingia. Logo, ele com apenas um gesto, virou meu braço para trás e o deslocou na hora. Com certeza seus conhecimentos médicos lhe serviram de alguma coisa. Ele me empurrou sobre o chão e cai batendo o rosto com o ombro deslocado. Senti o osso do rosto ferir minha pele e a batida na barriga me tirou o fôlego. Deu tempo de ele verificar os danos que eu havia lhe feito, algum sangue manchou seus dedos quando os passou levemente sobre um pequeno ferimento no lábio.
_ Sua puta desgraçada! - ele falou sem pena.
Eu tentava me levantar, sentindo uma dor quase anestesiante no ombro. A moleza e a falta de um braço que suportasse meu peso não ajudava. Ele colocou os pés sobre minhas costas. E em seguida me acertou um chute certeiro no braço. Senti um “crack” familiar. Algo havia se quebrado. Gritei de dor, e ouvi minha mãe gemendo algo do quarto, como se quisesse saber se eu estava bem. Antes que eu dissesse qualquer coisa, o médico me virou para ele e colocou as mãos com bastante força sobre o meu rosto. Senti um ímpeto de vomitar devido a força com que ele pressionava minha boca e garganta. Quando sentiu que eu fosse desmaiar ele retirou as mãos e colocou o dedo sobre os lábios, pedindo que eu ficasse em silêncio. O medo paralisante me fez obedecê-lo. Mas depois de um sorriso malicioso, ele me acertou um soco preciso na boca, rompendo meus lábios e causando um forte sangramento no nariz. Eu estava desonrietada. Enquanto ele me mantinha de sentada, minha cabeça ia para trás, enquato eu me recuperava do soco. Senti ele me soprando para me ajudar na respiração, enquanto me dava leve tapas nas maças do rosto. Ele me ajudou a me sentar e enquanto acariciava meus cabelos, sussurrou em meu ouvido:
_ Diga a sua mãe morimbunda que você está bem, para que ela não se preocupe.
Já melhor, porém ainda bem atordoada, eu o obedeci:
_ Mãe, eu estou bem. - quando falei não imaginei que minha voz sairia tão arfante.
O soco que se seguiu acertou bem em cheio minha mandíbula e fez com que eu caísse, dessa vez, ele não se preocupou em me segurar. Me virei de bruços, e apoiei os cotovelos no chão, mas não era humanamente possível sustentar meu corpo. Não demorou para ele atirar seu peso sobre mim, me mantendo sobre o chão, impossibilitando qualquer movimento de minha parte. Moveu seus joelhos afastando minhas pernas uma da outra, e se colocou entre elas, e pude sentir seu membro ereto tocando minha nádegas. Rasgou a parte de cima do meu vestido com muita facilidade já que o tecido era bastante velho, expondo meus seios. Em seguida rasgou a saia do vestido, me expondo até as cochas. Os trapos foram sendo rasgados um a um sem que eu pudesse me defender, e o pouco que restara não cobria quase nada. Suas mãos escorregadias foram visitando cada parte de meu corpo, até mesmo as que nunca haviam sido tocadas antes por ninguém. Antes que eu pudesse reagir ou retrucar, ele introduziu seu membro em mim de forma tão dolorosa que nem gritar eu consegui. A voz me fugiu. E ainda que fosse possível emitir qualquer som, suas mãos suadas e trêmulas sobre minha boca não me deixariam. A força com que ele pressionava as mãos sobre meus lábios ajudavam a abrir ainda mais o ferimento e me impedia de pedir socorro. Mas também quem viria? As fortes entradas eram suportadas enquanto eu me segurava em sua roupa, cerrando os olhos em uma careta de dor. Ele retirava minhas mãos, não querendo que eu o tocasse, demonstrando uma certa repulsa; e com uma intenção sórdida de não permitir que eu amenizasse minha dor. Senti como se fosse desmaiar, mas me concentrei para me manter desperta. E cada momento foi sentido. Tão logo ele gozou, ele ficou sobre mim durante um tempo, e eu esperava em choque que ele saísse. Quando recuperou suas forças, ele se ergueu e se vestiu com muita calma. Meticulosamente, como tudo que fazia. Antes de sair repetiu friamente:
_ Agora estamos quites. Considere paga a consulta de sua mãe. Não vou lhe cobrar.
O encarei tentando disfarçar meu ódio, e meus dentes bateram uns nos outros, eu estava trêmula de ódio. Minha ânsia era de levantar, atacá-lo, e quem sabe com muita sorte até matá-lo, mas não me deixou com forças. Seria muita sorte se eu conseguisse me colocar de pé quando ele saísse. E então finalmente ele saiu, e eu permaneci ainda muito tempo sobre o chão chorando. Com as mãos entre as pernas e rodeada de meu próprio sangue.
Sei que minha mãe escutou cada choro, cada lamentação, cada lágrimas que escorreu, cada gemido de dor que eu emiti, porém foi difícil segurar. A humilhação, a angústia que aquele homem havia me feito passar era algo que nunca pensei sentir.
Depois de algumas horas, finalmente consegui me erguer. Observei horrorizada para o sangue derramado sobre o chão que havia manchado boa parte do assoalho. Apesar de que ninguém além de mim veria aquilo, tirei minha roupa rasgada do corpo e comecei a limpá-lo num ato de desespero no intuito de apagar qualquer vestígio daquela tragédia que havia me ocorrido. Consegui limpar pouco do sangue e disparei a chorar, as lágrimas escorriam copiosamente, o desespero tomava conta do meu ser, se eu tivesse um veneno na minha frente, uma faca, naquele exato momento eu tiraria a minha própria vida. Me ergui abatida em busca de algo que me ajudasse a por fim àquele sentimento, porém o grito de minha mãe me impediu. Corri em seu auxílio e ela estava quase de pé me esperando, havia se preocupado o bastante para depois de meses finalmente conseguir se erguer. Sua voz fraca me questionou:
_ O que houve, minha filha? Eu já lhe chamei tantas vezes e você não veio.
_ Só ouvi uma vez, mãezinha. - falei com a voz calma. Talvez durante um tempo eu tivesse saído de mim e realmente não a escutei.
_ O que está fazendo de pé? - eu a questionei, preocupada.
_ Achei que algo horrível havia lhe acontecido. Ouvi uns sons terríveis. - Seu choro era abafado e fraco. Ela já não tinha forças, ela já não tinha pulmões para falar, ainda mais chorar. Minha mãe fumava desde pequena. E na época os cigarros não tinham filtros como os de hoje em dia, e fora isso que lhe causara a terrível doença que a estava matando. E ainda por cima, eu viria a saber um século depois de sua morte, que ela tinha outra doença que acometia seu nervos e descontrolava seus membros constantemente. O câncer no pulmão havia progredido tão rapidamente que eu já não tinha certeza de quanto tempo ela teria de vida. Ajudei-a se deitar, e arrumei o travesseiro sob sua cabeça. Apesar da insistente pergunta do que havia acontecido, respondi rapidamente acalmando-a:
_ Estou bem, mamãe. Não se preocupe.
Por sorte a luz fraca da vela, e sua visão turva e cansada não a permitia ver com clareza, caso contrário teria visto as marcas em meu rosto.
Sentei ao lado dela, mas sua respiração estava bem pior do que eu estava acostumada. Era uma respiração pesada e forçada. Ela me olhava com medo e desespero. Segurou em minhas mãos com força:
_ Me trás… - demorava um século para falar, devido a falta de ar. _... um chá… - falar era uma tarefa quase impossível. _... para eu…. - tossiu tanto que achei que nunca terminaria aquela frase…. - dormir. - pediu
Desci o pequeno lance de escadas correndo, o dia havia se passado e dado lugar para a sombria noite. Ascendi uma vela apressadamente, só que era tão fraca que não me permitiu ver o sangue sobre o chão. Escorreguei manchando todo o meu vestido, braços, e pernas. O cheiro de sangue estava forte, temi que algum cão pudesse me farejar e me atacar, porém teria que sair assim mesmo. A vida da minha mãe dependia daquele chá. Nem reparei que meu corpo havia gelado, enrolei um cachecol no pescoço e coloquei uma manta sobre os ombros. E sai pela porta, apavorada em busca do chá que lhe salvaria a vida.
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