domingo, 28 de setembro de 2014

Tribuna Superior da Santa Inquisição
1789

A mão acusadora do juiz fez meus joelhos dobrarem enquanto minhas pernas fraquejaram, quase me tombando ao chão. Eu ainda não tinha plena consciência do meu poder e a simples ameaça de ser levada à fogueira gelava meu coração. As palavras pronunciadas fortemente sob gritos e falsos protestos eram incompreensíveis para a maioria das pessoas, mas causava reboliço, sendo o suficiente para convencer a multidão já vencida. Meus olhos não conseguiam encarar nem sequer uma pessoa naquele grande salão mesmo sabendo que a maioria não era melhor nem pior que eu. Lá estavam os bêbados da taverna que minha mãe trabalhou, e que me viram crescer. Os mesmos que após a enfermidade de minha mãe, eu os havia servido mais do que simples cervejas. Meus lábios tremiam, me impossibilitando dizer se quer uma palavra em minha defesa. Bati as mãos uma na outra num impulso de rezar, mas me dissuadi da ideia quando lembrei que nessa altura Deus já havia me abandonado há muito tempo. Engoli seco e continuei observando enquanto aquelas pessoas que nunca saberiam nada do meu passado decidiam meu futuro; elas mal sabiam sequer algo sobre sentimentos, mas me julgavam fortemente, me vestiam com a máscara que queriam, desde que aquilo aliviasse suas consciências tornando suas almas, pelo pelo que pelo que eles acreditavam mais puras. Talvez nem estivessem de todo errado, afinal eu já havia matado algumas pessoas, ainda que não fosse por minha vontade, mas aquele novo ser que habitava em mim já havia dominado grande parte de minha alma, se eu ainda me restara uma; e eu com certeza já não era aquela garotinha inocente que cuidava de minha mãe doente quando aquele monstro me atacou. Mas aquele medo começava a me dominar a ponto de eu querer gritar e sair correndo dali implorando implorando por misericórdia. Sempre tive medo da morte, e ainda não conhecia os benefícios que aquele amaldiçoado poder havia me trazido. Eu sabia que havia me tornado uma pessoa mais forte, mas força para alguém como eu era um mero detalhe, já que eu não tinha uma agressividade que me fizesse fazer uso dela tão mortalmente. E também sabia que me curava mais rápido que as outras pessoas, mas o termo imortalidade era demais para a minha cabeça até então limitada pelos básicos conhecimentos que o retrógrada médico de minha mãe as vezes me passava. Eu nunca havia conhecido ninguém que soubesse evitar a morte. E com certeza eu não seria a primeira.  
Fui levada por dois homens mais baixos que eu, que me conduziram com total descaso até a masmorra. Havia um pequeno lance de escadas, porém minha tentativa de desce-lo de forma civilizada foi em vão. Os braços fortes me empurraram de uma só vez sem me dar chance de me manter em pé, senti meus joelhos dobrarem quando tentei me apoiar em vão no corrimão da escada que eu pensara estar lá, quando minhas mãos tocaram o vazio, meu corpo se virou causando minha queda. Os risos forçados que seguiram eram tão revoltantes que me deram náuseas. Levantei com certa dificuldade, e pude reparar no sangue em minhas mãos, porem não poderia ser meu, já que não sentia o sangramento em lugar algum, mas para meu horror, a minha queda havia me causado bem mais do que alguns poucos arranhões. Uma haste de ferro estava enfiada em minha barriga e é era possível senti-la do outro lado. Me segurei para não chorar e a única forma de me manter assim foi proliferando algumas palavras sem nexo em um só pulmão:
_ Desgraçados! 
_Guarde suas forças, moça. Porque quando chegar sua vez, não terá forças nem para respirar.
Desmaiei caindo sobre o concreto.


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